Camada mais pobre da população é ainda a que mais sofre com problemas de
mobilidade urbana. Estudo do Ipea revela que investimentos em
transportes públicos devem ser constantes.
Créditos: Blog Acerto de Contas/Acervo
Quando se fala em justiça social, logo se pensa em cidades com menos
desigualdades, tanto financeiras, como de oportunidades e de condições
de vida.
São vários os fatores que ainda fazem o Brasil ser um país desigual:
diferença na renda entre trabalhadores inclusive os da mesma profissão,
preconceitos raciais, falta de oportunidades de educação acadêmica e
qualificação profissional para toda a população, assistencialismo em vez
de criação de condições para as pessoas gerarem sua própria renda e
também, logicamente, a corrupção que literalmente usurpa recursos que
seriam usados para os serviços básicos para o brasileiro.
O que muitos não discutem, e que é fundamental, é que a falta de
mobilidade urbana e de investimentos em transportes públicos ajuda a
ampliar o abismo ainda existente na qualidade de vida entre os que
possuem mais e os que possuem menos renda.
Estudo do Ipea – Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, divulgado
nesta terça-feira dia 12 de março de 2013, revela que a população de
menor renda é ainda a que mais sofre com os problemas de mobilidade
urbana, o que indica que a maioria dos investimentos em vias e
transportes continua destinada para servir uma minoria da população mais
privilegiada que possui mais automóveis e condições de morar mais perto
de onde trabalha.
De acordo com o estudo, ao qual este jornalista teve acesso, “Na média
das áreas metropolitanas analisadas, os mais pobres gastam quase 20% a
mais de tempo do que os mais ricos se deslocando para o local de
trabalho. Ainda, 19% dos mais pobres fazem viagens com duração acima de
uma hora (somente trajeto de ida), enquanto esta proporção entre os mais
ricos é de apenas 11%. Estes resultados reforçam os achados de estudos
anteriores de que, em geral, a população de mais baixa renda tende a ser
mais vulnerável às desvantagens no transporte urbano”
É verdade, no entanto, que a diferença entre os ricos e pobres no
trânsito têm diminuído de uma maneira geral no País. De 1992 a 2009, o
tempo de deslocamento entre os mais pobres subiu 4% e para os mais
ricos, a alta foi de 15%.
No entanto, não há de se negar que as cidades ainda têm concentrado os
investimentos para os que possuem maior renda. A maior parte das
ampliações viárias, a concentração de linhas de metrô e todas as
intervenções de infraestrutura ainda são mais evidentes nas regiões
centrais que nas periferias.
E quando se fala em desigualdade no tempo de viagem entre os mais ricos e
mais pobres, não se pode pensar apenas nas horas que as pessoas passam
no trânsito e sim, no que elas poderiam fazer se não estivessem nos
congestionamentos. Este aspecto mostra o quanto os investimentos em
transportes públicos são essenciais para que as pessoas com menos
condições possam ter acesso a novas oportunidades.
Muitos só trabalham e não estudam não porque simplesmente não há escola.
Mas porque não sobra tempo para estudar. Muitas famílias cujo pai e
cuja mãe têm de trabalhar para o sustento da casa não podem acompanhar
adequadamente o crescimento dos filhos pela falta de tempo.
Muita gente deixa de fazer um acompanhamento médico correto não apenas
porque não tem vagas nos hospitais, mas porque é difícil chegar às
unidades de saúde de referência.
O estudo é de Rafael Pereira, técnico de planejamento e pesquisa do
Ipea, em parceria com Tim Schwanen, da Universidade de Oxford, e leva em
consideração dados de 10 capitais brasileiras e mais 20 grandes cidades
do mundo.
Outra conclusão do levantamento é que as cidades de São Paulo e do Rio
de Janeiro figuram respectivamente na segunda e na terceira posição no
ranking de onde as pessoas demoram mais tempo para deslocarem só na ida
de casa para o trabalho.
Entre as dez cidades do mundo nas quais as pessoas ficam mais tempo no trânsito estão, de acordo com a pesquisa:
1º) Xangai – 50,4 minutos
2º) São Paulo – 42,76 minutos
3º) Rio de Janeiro – 42,58 minutos
4º) Londres – 37 minutos
5º) Estocolmo – 35 minutos
6º) Recife – 34,88 minutos
7º) Nova Iorque – 34,6 minutos
8º) Tóquio – 34,5 minutos
9º) Salvador – 33,91 minutos
10º) Paris – 33,7 minutos
O estudo não analisa dados de agora, mas da evolução da situação de
transportes e deslocamentos destas cidades. Para os municípios
brasileiros, o levantamento levou em conta informações coletadas desde
1992 da Pnad – Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios, do Instituto
Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE.
E esta evolução de dados mostra resultados bastante interessantes.
Em praticamente todas as regiões metropolitanas brasileiras houve
aumento do tempo de deslocamento. Mas onde foram realizados
investimentos em transportes coletivos, estes aumentos foram contidos e
em diversos momentos, houve até redução.
Mas exemplos de cidades como Rio de Janeiro, Porto Alegre e Curitiba
mostram que os investimentos em transportes públicos devem ser
constantes. Não basta inaugurar uma obra e pronto. O transporte sempre
deve crescer junto com as necessidades da cidade.
De acordo com a pesquisa, em vários anos o percentual de pessoas que
demoram mais de uma hora para se deslocarem no Rio de Janeiro caiu fruto
de investimentos em obras viárias, no metrô e no sistema de ônibus, mas
à medida que estes investimentos diminuíam, voltavam a aumentar o os
tempos de deslocamentos.
Diferentemente do que ocorreu em Minas Gerais, São Paulo e na maior
parte do Norte e Nordeste, em cidades do Sul do País, em duas décadas o
tempo de deslocamento dos cidadãos ficou praticamente estável, mesmo com
crescimento populacional. E segundo o estudo que é fruto de uma
parceria internacional, o motivo de as viagens não se tornarem mais
demoradas foi a atenção maior ao transporte público.
“As exceções a essa tendência (de alta no tempo de deslocamento) são as
RMs (Regiões Metropolitanas) de Porto Alegre e Curitiba, que têm
apresentado uma tendência praticamente estável ao longo de todo o
período. Possivelmente, esta estabilidade se já decorrente de um
controle mais bem-sucedido da expansão urbana e de sistemas de
transporte público mais eficientes nestas áreas”.
Assim, mostra o estudo, o transporte coletivo não é só um meio de
garantir a mobilidade urbana, mas também a justiça social e contribuir
para a igualdade de oportunidades.
Adamo Bazani, jornalista da Rádio CBN, especializado em transportes
Blog Ponto de Ônibus